O Desejado by Aydano Roriz
Author:Aydano Roriz [Roriz, Aydano]
Format: epub
Published: 0101-01-01T00:00:00+00:00
A situação do Reino ia de mal a pior. Não obstante, na busca de fazer amigos para compensar a solidão, Dona Catarina não hesitava em comprar as ricas jóias e roupas que os mercadores lhe ofereciam. Igualmente, fazia doações generosas a igrejas e irmandades religiosas e concedia tenças e pensões a um sem número de protegidos. Pedro de Alcáçova, agora secretário de Estado, fazia e desfazia. Gozava de enorme prestígio junto à rainha. E enquanto Mem de Sá, o governador do Brasil, recebia modesto reforço para tentar expulsar os franceses do Rio de Janeiro, em Lisboa Dona Catarina atendia a pedido do sobrinho Felipe de Espanha: cedia quinze navios da armada portuguesa para ajudar o rei da Pérsia a combater os turcos.
— Não é à toa que as Casas da Índia foram à falência — comentava o povo.
Entreposto comercial do Reino, o centenário estabelecimento contava no próprio nome a história dos bons tempos do país. Começara como Casa de Ceuta, quando o Mestre de Avis atravessara o estreito de Gibraltar e dera o primeiro passo na expansão ultramarina portuguesa. Muitos anos depois, no tempo em que,buscando um caminho marítimo para as Índias, as caravelas do Infante Dom Henrique trouxeram para Portugal os primeiros escravos negros, a designação havia mudado para Casa da Guiné. Descoberto ouro nas costas da África, o entreposto ganhara o nome de Casa da Mina. Finalmente, quando Vasco da Gama conseguiu chegar a Calicute e os navios portugueses começaram a trazer os primeiros carregamentos de especiarias, os armazéns reais passaram a ser conhecidos por Casas da Índia.
Em Londres e Amsterdã lamentou-se profundamente a bancarrota das Casas da Índia. Há anos os mercadores estrangeiros ganhavam gordas fortunas às custas do entreposto português. E ganhar dinheiro naquele negócio nem era difícil. Uma vez que as riquezas de além-mar eram monopólio da coroa, o rei de Portugal bancava todos os investimentos e riscos, até a chegada das mercadorias a Lisboa. Ali, então, nas Casas da Índia, os estrangeiro a adquiriam os produtos em grosso e mandavam para seus países. O pau-brasil, por exemplo, chegava a Portugal em toras e era vendido para mercadores flamengos. Só em Flandres os troncos de madeira eram picados, misturados com água e postos a fermentar, para transformarem-se na valiosíssima tintura usada para tingir tecidos. Com o ouro fiado, a pimenta, o açúcar e outras especiarias não era diferente. Os estrangeiros compravam em grosso em Lisboa, para fazer depois distribuição no varejo. E já que Portugal não era auto-suficiente em praticamente coisa alguma, aproveitavam para vender pólvora, armas, tecidos, trigo, carnes em conserva, peixe-seco e até mesmo manteiga. Com tantas extravagâncias, a diferença entre receitas e despesas das Casas da Índia foi crescendo e crescendo, até o dia em que não pôde mais honrar os compromissos.
Não tendo conseguido na prática compartilhar do poder, o cardeal Dom Henrique tratou de se afastar de Dona Catarina. Queria que o povo esquecesse ser ele adjunto na regência. Por intermédio dos Tribunais do Santo Ofício, concentrou-se em livrar Portugal dos hereges e, em outra frente, a convencer o Papa a autorizar a transformação do antigo Colégio do Espirito Santo em Universidade de Évora. O cardeal fazia o bem. A rainha fazia o mal. Era preciso dar um basta nos desmandos. Induzidas pelos partidários do conde de Castanheira e pelo filho dele, o bispo de Viseu, as Cortes49 se fizeram convocar. Os grão-senhores e homens bons do Reino exigiam ser ouvidos.
49 Espécie de parlamento, convocado esporadicamente pelo rei, para administrar crises ou abonar decisões que precisassem de sustentação popular.
CAPÍTULO 30
Fazia mais de cinco anos que não se via tanta gente junta em Lisboa. Naquele domingo, treze de dezembro de 1562, desde cedo o Terreiro do Paço estava atulhado de Gente. Era o dia de abertura das Cortes e todos queriam assistir à chegada das delegações. Primeiro entraram em palácio os representantes do povo, eleitos especialmente para a ocasião em cada uma das trinta e seis cidades e vilas do Reino que dispunham de tribunais e juízes próprios. Pouco à vontade em suas roupas novas, vinham os delegados muito compenetrados, inflados de orgulho e já se sentindo degraus acima das gentes que os haviam eleitos. Em seguida, de liteira, foram chegando as autoridades eclesiásticas. Vários bispos e o arcebispo de Lisboa até pareciam príncipes, tal a expressão sobranceira e a magnificência dos paramentos. A nobreza também iria participar das Cortes, mas só uns poucos marqueses e barões foram vistos. Os mais nobres entre os nobres tinham entrada garantida no palácio por acessos vedados ao público.
Redecorado com ricas tapeçarias para a ocasião, o Salão Grande do Paço da Ribeira nem de longe denunciava as dificuldades do país. O clima era de festa. Os representantes do povo sentiam-se altamente envaidecidos. Não poucos se dariam por satisfeitos só pela oportunidade de partilhar tanta pompa.
Com aparato e cerimônia, a entrada da família real finalmente foi anunciada. Cessado o burburinho, subiram os cinco degraus aos fundos do salão o cardeal Dom Henrique, Dona Catarina e por último, para sentar-se entre os dois, num trono coberto com dossel franjado em ouro, o jovem rei, de coroa na cabeça e cetro na mão.
Não era à toa ser aquele o Messias do Reino. — cochichavam entre si alguns delegados. Era de causar arrepios. Dom Sebastião ainda não completara nove anos, mas parecia um deus, tal a solenidade e altivez que sua presença impunha.
Feitas as saudações e os discursos laudatórios de praxe, o erudito bispo Dom Antônio Pinheiro resumiu o que se pretendia com aquelas Cortes: "Que cada uma das partes tenhanela mais presente a lembrança de sua obrigação,
e que resulte dela não somente o remédio das necessidades (...), mas também a medicina para os abusos, excessos, superfluidades, delícias, corrupção dos bons e antigos costumes (...), por cujo esquecimento (...) se pode dizer que vive o Reino como paralítico em seu leito (...), sem dos benefícios que lhe foram aplicados sentir saudável e constante melhora".
Iniciadas as discussões, o clima foi se tornando mais e mais tenso. Sentindo-se pressionada, Dona Catarina pediu um aparte e saiu-se com uma surpresa. Alegando precisar "gastar a vida que lhe restava na salvação da alma", a rainha propôs renunciar ao governo e mudar-se para um convento em Castela. Entregaria ao cunhado, o cardeal Dom Henrique, a regência e a tutela do jovem rei.
Os apaniguados de Dona Catarina ficaram atônitos. Entregar a regência assim... só por causa das pressões! E eles?... O que seria deles com um novo governo? Mas não conseguiram fazer a maré refluir. Com a abdicação à regência, as Cortes concordaram de pronto. Em todo o caso, pediram à rainha a mercê de não abandonar, ela também, a Dom Sebastião. Como vó, madrinha e figura feminina, entendiam ser de grande relevância o papel de educação do jovem rei.
Proposição aceita, comemorou-se discretamente a vitória. Contudo, forçar a abdicação da regente não parecia sufiente. Muitos delegados diziam estar o povo cansado do descalabro econômico e da degeneração moral do país. Novas sessões foram agendadas. As delegações reuniram-se, discutiram, inflamaram-se, concordaram, discordaram, agrediram-se e chegaram a uma pauta mais ou menos comum. Fazem então ao rei, e ao novo regente, o cardeal Dom Henrique, suas propostas e reivindicações.
Com as vistas a reduzir despesas, pedem a suspenção imediata de todas as obras, dando continuidade apenas, por questões de segurança, à construção de fortalezas à beira mar. Sugerem a redução do número de desembargadores do Paço da Suplicação e do Cívil, e propõem a extinção dos cargos de juiz de fora e capelão da capela-real. Propõem, igualmente redução no grande número de funcionários da Fazenda face aos altos salários pagos. Nesse particular, insinuam que a coroa deveria manter-se mais atenta. Até porque, estando o rei pobre, não poderiam vários de seus servidores ser tão ricos.
A bem da moralidade, as Cortes gostariam que não fossem mais dados benefícios ou cargos na administração pública a estrangeiros e que funcionários mais graduados dessem conta de como obtiveram suas fortunas. Que fossem investigados os atos passados dos vedores da Fazenda e revistas as comendas dadas a pessoas que não as mereciam. Recomendam que não possa ser juiz nas aldeia quem não saiba ler ou escrever e que os escrivães de má letra fossem obrigados a redigir compreensivelmente, sob pena de perderem seus ofícios.
Do ponto de vista socioeconômico, a grande queixa ficava por conta da quantidade de escravos negros que viviam em Portugal. Os pretos, agora, não constituíam apenas o excesso de bocas para alimentar, como tinham gerado no povo português a indolência e má vontade para o trabalho. Daí o grande número de desocupados no Reino. E de prostitutas também. Prostitutas e desocupados que deveriam ser retirados do convívio das famílias portuguesas e mandados para povoar o Brasil. A par disso, gostariam que cristãos-novos não pudessem exercer determinados ofícios e que o pão, o trigo e as carnes tivessem os seus preços tabelados e congelados. Ademais, na expansão ultramarina, pelo fato das Índias serem muito distantes estarem a render poucos proveitos insistiam ser mais conviniente ao país a conquista dos reinos muçulmanos da África.
Dom Sebastião sorriu com o canto da boca. Adorou esse capítulo.
As questões militares foram motivo de recomendações especiais. O recente cerco a Mazagão só comprovara: os mouros eram inimigos perpétuos de Portugal. Por conta disso, as Cortes propunham a construção de fortalezas no Algarve e a proibição de que os descendentes de muçulmanos pudessesm morar naquela região. Recomendavam a obrigatoriedade, para todos que vivessem a até duas léguas do mar, terem em casa armas de fogo, lanças e balestras, e que o povo se exercitasse frequentemente nas armas,de modo a estar sempre apto para a luta. Que o subsídio para as guerras se tornasse obrigação de todos, mas em particular, das classes mais abastadas. E dado que Portugal sempre iria precisar de barcos e as florestas estavam rareando, que se ordenasse o plantio de pinheiros e azambujeiros50 nas terras baldias.
Finalmente, rogavam a Dom Sebastião que assumisse o pleno governo do Reino aos catorze anos e não aos vinte, como havia determinado Dom João III. E que, para o bem da continuidade da Casa de Avis, fosse negociada uma aliança matrimonial com a França casando o jovem rei de Portugal com Dona Margarida de Vailois, a irmã caçula do rei francês.
50 Oliveira silvestre, de madeira muito dura.
CAPÍTULO 31
Louro, branquelo, franzino, e de olhos esbugalhados, Dom Henrique acabara de completar cinquenta e um anos e nunca perdoara aos pais haver nascido depois do irmão. Por que fora João, e não ele, o primogênito? Para extravasar seu anseio pelo poder, só lhe sobrara a vida religiosa. De tanto que insistiu, aos catorze anos já era prior do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Feito arcebispo aos vinte e dois anos, inquisidor-mor do Santo Ofício aos vinte e oito e cardeal aos trintae três chegara mesmo a receber quinze votos quando, com a morte de Marcelo candidatara-se a Papa. Para o Trono de Sao Pedro também não fora escolhido e, com a morte do irmão, a cunhada Catarina havia lhe passado a perna na Regência. Agora, finalmente chegara a sua vez.
Ainda que muitos dos chamados capítulos das Cortes soassem como uma espécie de atestado de incompetência da rainha que fora regente, nem por isso o novo regente deixou-se impressionar. As providências que demandavam apenas a assinatura de um outro documento, implementou. Umas poucas obras mandou parar, e as fortalezas no Algarve, construir.Já as disposições mais trabalhosas ou que demandavam delicadas negociações políticas, foi deixando para depois.
A auto-estima de Dona Catarina, a vaidade e o orgulho dos Habsburgo de Austria, doíam fundo no peito. Porém, até esses sentimentos conseguiam ser suplantados pelas preocupações da velha rainha no momento. Mandou celebrar missas extras. Orou, jejuou e fez promessas. A recomendação dos delegados das Cortes para que Dom Sebastião se unisse à irmã do rei da França não lhe saía da mente. De um jeito ou de outro, era preciso encontrar um recurso que impedisse a contratação de tal casamento.
A idéia veio-lhe enquanto dormia. O primeiro sonho que tinha com o marido, desde que podia se lembrar. E o esposo nem parecia o João gorducho, calvo e de olhos empapuçados que ela guardava na memória. O falecido mostrava-se jovem e bonito como nos primeiros anos do casamento. Por um minuto a viúva sentiu-se tomada de inveja, traída e em desvantagem. Mesmo assim, desabafou com ele.
— Que posso cá fazer, Catalina, minha querida. Por que não te aconselhas com o Castanheira? Ele acompanhou o problema.
— Nunca! Jamais! Sabes que detesto aquele homem. Nem imaginas o que ele obrou contra mim depois que faleceste.
— Tolices, Catalina. Conheço o meu amigo. Talvez ele não goste mesmode ti. Tu sempre estiveste de birras com ele. Mas, acredita, pelo bem dos nossos reinos. Castanheira faria qualquer cousa. Aconselha-te com ele. É um bom amigo.
— Tu achas? Achas mesmo?
— Tenho cá certeza.
— Não seria... Não seria humilhação demais? Isso, de eu cá me rebaixar e pedir a ajuda do Castanheira?...
— Tolices, Catalina. Sabes uma cousa que aprendi?Cá do outro lado não existem reis ou vassalos. Não tem príncipes, duques, condes... nem mesmo lacaios. Ninguém é melhor ou pior do que ninguém. Somos todos iguais perante o Nosso Senhor Deus.
— Iguais? Todos iguais!... — e Dona Catarina acordou assustada, banhada em suor.
Por dias e dias o sonho não lhe saía da cabeça. Ainda assim, resistia. Se antes da morte do marido já não gostava daquele conde, desde que soubera ser ele o insuflador da convocação das Cortes considerava-o praticamente um arquiinimigo. Em todo o caso era forçoso reconhecer: Castanheira privara a vida inteira da intimidade do rei e nunca se soube que tivesse feito inconfidências. Mas daí pedir a ajuda dele...
Fazendo das tripas coração para controlar o orgulho, tentou junto ao cunhado, o cardeal-regente, um meio de evitar as negociações para o casamento.
— Já sei — ironizou Dom Henrique —, estavas reservando o Menino para alguém da vossa família.
— Não se trata disso, ó Henrique — irritou-se Dona Catarina. — Claro que reforçar os nossos laços com Castela sempre esteve em minhas cogitações. É meu dever desejar o melhor para o meu neto.
— O melhor para o teu neto?... Ah! ah! ah! ah!...
— Mas nem é isso o que cá me preocupa no momento.O que me aflige é unir nosso sangue ao de uma casa real tão... tão enferma nas cousas da religião.
— Dizes isso por conta das feitiçarias de Catarina de Medici?
— Soube que agora anda às voltas até com um adivinho. Um tal Nostradamus.
— Não te aflijas. Nosso embaixador garantiu-me que a rainha é boa cristã. Tem só curiosidade pelas cousas da astrologia.
— Conversa de embaixador! E essa do filho-rei dela, que quer mudar o consílio de Trento para uma cidade alemã? Que ameaça não mandar representantes de França, se a sede do concílio não for mudada?
— Não creio que precises te preocupar. Já emprestei o meu apoio ao Papa. Em nome de nosso rei, naturalmente. — E eriçando as sobrancelhas peludas com sarcasmo:
Por ora, minha querida cunhada, é melhor ires tratando de aprender francês. Já começaram as negociações para o casamento.
Não restava outra alternativa.
Antônio de Ataíde, o conde de Castanheira, ficou muito surpreso com o correio que recebeu da rainha. Pedir que fosse visitá-‐la, com dia e hora marcada, soava muito esquisito. O assunto deveria ser muito grave, cogitou. Gravíssimo.
CAPÍTULO 32
A recepção foi fria, como sempre. A diferença era que o hálito da rainha recendia a vinho, o que não era habitual àquela hora da manha. Dona Catarma recebeu Castaheira em seus aposentos privados. Antes mesmo de convidá-lo a sentar-se, dispensou as damas de companhia e camareiras. Cuidou ela própria de passara tranca na porta e, em lugar de tomar assento, foi verificar por trás de cada reposteiro se nao havia espias.
— Sonhei com o senhor meu marido — começou a rainha. E como o conde permanecesse em silêncio: — João me fez um pedido. Castanheira não se deu por achado. Dona Catarina levantou-se e andou nervosamente pela câmara. Era patente o desconforto que sentia. Acercou-se do aparador e serviu-se de vinho. Só depois do primeiro gole lembrou-se de perguntar se o conde estava servido.
— Não, Alteza, é cedo para mim.
— Vamos acabar com isso de uma vez — vociferou a rainha, voltando a se sentar na poltrona fronteira à da visita. —João dizia que Vossa Graça era amigo dele. Em sonho, pediu-‐me para confiar em Vossa Mercê. Careço do vosso auxílio. Ajuda-me ou nao?
— Do que se trata?
— É sobre aquele capítulo das Cortes. As malditas Cortes que vossa Mercê insuflou. — E caindo em si e procurando conter-se: — O capítulo que fala sobre o casamento do meu neto, el-rei.
Castanheira balançou a cabeça.
— Vossa Mercê sabe que Dom Sebastião não pode vir a casar-se. — E abaixando um pouco a vista, algo ruborizaila: Aquele problema de nascença.
— É verdade. Mas... Sua Alteza me parece tão bem. Não regrediram os... os humores femininos?
— Não sei. Ninguém sabe. As vergonhas do meu neto há anos não são vistas por ninguém. Penso que nem por ele mesmo.
— Se Vossa Alteza assim quiser, posso tentar encontrar aquele mestre-fisico que o examinou quando recém-nascido.
— Não adianta. Já tentei. Mudou-se para a Grécia e assumiu sua condição de judeu. Judeu que, cá para mim, nunca deixou de ser.
— Que pena! Da Grécia fica difícil trazê-lo. É conquista do Grão-turco. Os muçulmanos dão proteção aos judeus.
— Eu sei. Por isso é que preciso da ajuda de Vossa Mercê. É preciso impedir esse casamento.
— Impedir...
— Impedir, sim. De um jeito ou de outro. A qualquer custo. Vossa Graça deve saber como agir. Eu cá não sei.
Castanheira enrolou com vagares as pontas do bigode cuidadosamente frisado. Valeria a pena se expor, correr riscos, para atender a um pedido daquela mulher que tanto lhe aborrecera? Não. Por ela, decerto, não faria coisa alguma. Mas... Diabos!...O problema não era só da rainha. Envolvia a dignidade da casa real de Portugal nas cortes da Europa inteira.
— Se amas mesmo a estes reinos, precisas me ajudar, senhor conde. O senhor meu neto não pode vir a casar-se. Não com uma princesa de França! Não teríamos como controlar a situação.
— Entendo.
— E então, posso considerá-lo um aliado? Posso tê-lo como amigo?
O velho conde refletiu mais um pouco.
— Talvez eu possa ajudá-la, senhora Dona Catarina. Mas antes careço de duas ou três cousas a Vossa Alteza.
A rainha, que não estava habituada a regatear com as próprias ordens, e muito menos a fazer pedidos, avermelhou um pouco as faces antes de consentir.
— Se vamos ser aliados — continuou Castanheira —, se Vossa Alteza pretende que sejamos amigos, é importante que saiba o que penso sobre a vossa augusta pessoa. E o que eu penso é que Vossa Alteza prejudicou muito seriamente cá estes reinos.
Dona Catarina ensaiou replicar.
— Não me interrompa, se faz favor — cortou-lhe a iniciativa o conde. A castelhanomania de Vossa Alteza, se me permite, chegou longe demais. E quem sempre pagou o preço dos vossos caprichos em prol de Castela foram as gentes cá de Portugal. E não me refiro só às gentes de armas nas Índias, em África e no Brasil, que por amor à pátria e ao rei, sempre doaram e continuam doando a própria vida. Falo também é das gentes humildes, que morrem de fome pelo Reino inteiro, enquanto Vossa Alteza exaure o Tesouro com suntuosidades e tolices. Como disse Felipe de la Torre, Dona Catarina, “o príncipe reina para servir ao povo, e não para servir-se dele”. E das quatro virtudes cardeais — prudência, justiça, temperança e fortaleza — Vossa Alteza só me parece cultivar a última.
Dona Catarina fungou, colocou a mão sobre os olhos pareceu chorar.
— Odeias-me, não é, senhor conde? Sim... Odeias-me — falou entre uma fungada e outra de nariz. — E que fiz eu que não fosse cá pensando no bem maior destes reinos?
— Perdoai-‐me, Alteza, mas creio que a hora não seja para gracejos.
— Gracejos? Como gracejos!...Só os tolos não vêem que o melhor para Portugal é unir-se à Espanha. Tens alguma dúvida, senhor conde?
— Pelo sangue de Cristo! — e Castanheira sacudiu a cabeça, entre incrédulo e surpreso. Não dava para acreditar. A castelhanomania da rainha não tinha limites. Era impossível conversar a sério com Dona Catarina.
— Cá não me é possível servir a Vossa Alteza — pontificou, ensaiando levantar-se.
A rainha foi mais ágil. Reteve-o pelo braço.
— Por especial mercê: ouve-me! Senta-te. Senta-te, senhor conde. Lembra-te do vosso amigo. Tem... tem humanidade. — E entre soluços: — Alguém também já disse que "é muito mais importante o que todos temos em comum do que enfatizar o que nos divide".
O aroma das delícias preparadas nas cozinhas do Paço infiltrava-se pelos vãos da porta e frestas das janelas. Era quase hora da refeição do meio dia. Depois de entornar uma jarra inteira de vinho, Dona Catarina continuava sua cantilena. Contava tudo, relatando para Castanheira os horrores a que fora submetida desde menina no castelo de Tordesilhas.
— Homem algum consegue imaginar a dor que é parir um nenê, senhor conde. Muito menos o sentimento de uma mãe ao perder um filho. E eu perdi nove. Nove filhos! Perdi meu pai antes de nascer, depois minha mãe, nove filhos, o senhor meu marido e, por último, o meu amado irmão. Que me falta perder mais? Só se for a vida! E essa, com pureza d'alma, senhor conde, eu daria com prazer, para não ver meu neto submetido ao ridículo.
Mulheres! ... — debochava o conde de si para consigo. Mas é fato que as lágrimas de Dona Catarina haviam lhe amolecido o coração. Coisas da idade. Castanheira contava sessenta e dois e, a essa altura da vida, ser tolerante é sempre menos difícil. Era-lhe muito angustioso ver uma mulher, uma rainha, velha e bêbada, implorando-lhe ajuda.
— Está bem, senhora Dona Catarina. Vou auxiliar Vossa Alteza. Procurarei fazer o que for possível. Mas, desde já, é bom que vos diga: não se come toucinho-do-céu sem quebrar muitos ovos, deitar fora as claras e bater as gemas. Para fazer o que me pede, talvez seja necessário criar alguma... alguma situação de conflito por assim dizer. Fazer correr algum sangue, se é que me entende. Autoriza-me?...
— Faz o que achares que deves, senhor conde. Tens a minha benção. O que é preciso é impedir o casamento do senhor nosso rei com aquela Margarida de França. A qualquer preço.
CAPÍTULO 33
A taberna enfumaçada no fim da rua Saint-Denis, nos fins de Paris, estava quase vazia àquela hora da tarde. Havia apenas duas mesas ocupadas. Em uma delas estava um jovem de cabelos negros e pele morena, há dias hospedado na estalagem. Na outra, dois rapazes que pelos trajes, dava para perceber serem moços de distintas famílias de França. E eram esses que pareciam um tanto excitados demais, como se tocados pelo vinho.
— Tu choras de barriga cheia, ó Jas. — O cacete! É verdade. Estou por aqui com os nhenhenhéns da corte, Bertrand! A rainha parece que quer fazer de nós tudo efeminado!... Nao aguento mais concertos não-sei-de-quê, saraus não sei de quantas...
— Ah! Já sei. Tu gostas mesmo é dos retratistas que os parentes dela mandam de Florença.
— Puta que o pariu! Nem me fales, ó Bertrand! — E fazendo trejeitos femininos, imitando Catarina de Medici, a rainha-mãe do rei de França: — Não é mesmo uma beleza, Assai bello? Bellíssimo?...
— O outro sorriu debochado.
— Justas e torneios que é bom... — prosseguiu o mais jovem. — As Índias estão aí, cheias de ouro, prata... Cheias de gentiazinhas peladas, e a gente aqui, nos rapapés da corte, feito uns tontos!...
— Eh, mano velho! Quanto a ti, nao sei. Eu, um dia desses, ainda caio no mundo para correr os mares...
O outro cliente da taverna, o moreno bem apessoado, hóspede da estalagem, levantou-se com a caneca na mão e se acercou dos rapazes.
— Posso pagar uma bebida a Vossas Mercês?
— Pagando, podes tudo! — respondeu sorrindo o que dissera que iria correr os mares. E, levantando o braço, gritou com espalhafato: — Ó Francine, traz mais vinho pra gente, ó vadia!
— Tu não és francês — continuou o rapaz, mudando de tom. — És de onde? Senta-te cá conosco. Como é o teu nome?
— Gaspar Caldeira, às vossas ordens, meus senhores. Sou de Portugal. E Vossas Mercês?...
— Bertrand. Bertrand de Montluc. — E fazendo um gesto na direção do companheiro de mesa; — Este aqui é o visconde de Jas.
Gaspar franziu a testa, deixando transparecer uma certa admiração pela juventude do visconde.
— Em França é assim mesmo — falou Bertrand, trocista. A velharada morreu quase toda nas guerras com o Carlos V. Somos um país jovem, mercê de Deus!
Francine, a serva rebolativa e de decote generoso, que em diferentes ocasiões já havia dado prazer a todos aqueles três rapazes, trouxe outra jarra de vinho, ganhou um tapa no traseiro e voltou para os fundos do salão.
— Mas... diz aí, ó...
— Caldeira, meu senhor. Gaspar Caldeira.
— Isso. Diz aí, ó Caldeira — continuou Bertrand. — Que fazes cá em França? Embaixador tu não tens cara de ser. És mercador ou algo assim?
— Não, meu senhor. A bem da verdade, estou cá a buscar amigos.
O francês gargalhou debochado, dando uma tapona no ombro do jovem companheiro.
— Ouviste essa, ó Jas? A coisa em Portugal anda tão feia, que nem amigo se encontra mais por lá. É preciso procurar em França. Ah! ah! ah! ah! ah!
Gaspar Caldeira também sorriu.
— Buscando amigos é amaneira de dizer — justificou o português. — Estou cá mesmo é a procura de parceiros para uma aventura ultramar.
— Aventura no mar?... Aventura interessa-me — brincou o jovem visconde.
Na ilha da Madeira, o dia três de outubro de 1566 nunca mais seria esquecido. Naquela quinta-feira, por volta das nove horas da manhã, uns pescadores viram no horizonte oito navios enfileirados seguindo na direção de Machico. Pouco mais tarde, um arcabuzeiro, que estava de sentinela na torre de vigia da fortaleza de São Lourenço, percebeu a mesma armada aproximando-se a toda vela da capital da ilha.
Mandado chamar às pressas, o capitao-mor da fortaleza mostrou-se aflito. O governador estava ausente, no Reino. Não tinha certeza sobre o que deveria fazer. Como agir. Atirar primeiro? E se fossem navios amigos?
Depois de muita insistência o artilheiro-mor, decidiu ordenar um tiro de canhão a esmo, na tentativa de provocar alguma reação. Nenhum dos veleiros respondeu ao fogo. Um a um, foram mudando rapidamente de direção e afastando-se do porto. O chefe da artilharia voltou a insistir tom o capitão: a ele, parecia claro não serem navios de boa fé. As bombardas estavam prontas e a postos. Autorizava os tiros? O capitão enxugou o suor da testa, tergiversou, andou de um lado para o outro, saiu-se com desculpas, acabou não consentindo.
Foi ao largo da praia Formosa, a uma légua da cidade, que os oito navios lançaram âncoras e a tripulação meteu-se a toda pressa em batéis para desembarcar. Uma vez na praia, sob o comando entusiasmado de Bertrand de Montluc e do visconde de Jas, os quase mil piratas trataram de encontrar um caminho na mata e marcharam sobre Funchal.
Quem deu o alarme foram uns meninos que, na rabeira de uma procissão nos arredores da cidade, viram numa curva do caminho o porta-cruz topar de cara com um bando de homens mal-encarados e de espadas em riste. Crucifixo posto ao chão, Bertrand ainda tentou, mas não teve tempo de evitar. O padre que se colocou à frente do cortejo, de braços abertos como a proteger os fiéis, a um urro de "papista desgraçado" teve o crânio esfacelado por um golpe de maça. Ao pânico inicial seguiram-se o clamor de vozes, o choro convulsivo das mulheres e crianças, o corre-corre generalizado.
Ao grito de "corsários!", "protestantes franceses!", "piratas!", algumas pessoas trancaram-se às pressas em casa. Outras desabaram a correr colina acima em direção ao canavial. Outras, ainda acudiram desesperadas ao portão da fortaleza de São Lourenço, em busca de proteção militar.
Homens valentes empunharam armas e acorreram à Porta de São Paulo, entrada da cidade. As carreiras, o turbilhão de invasores vinha em sentido contrário. Num primeiro ímpeto, os voluntários conseguiram ferir dois ou três piratas, mas não chegaram a oferecer resistência. Postos fora de combate, a turba entrou em Funchal.
Entre homens de armas, gentes da cidade e tripulantes dos três navios ancorados no porto, umas duzentas e cinquenta pessoas se viram encurraladas na fortaleza. Correndo desesperadas de um lado para o outro, o capitão-mor, uma vez mais, não sabia que providências tomar. Havia oito canhões no forte, mas estavam todos assestados em direção ao mar. Trazidos com muito esforço para as proximidades do portão, demonstraram ser de pouca utilidade prática. Os projéteis que lançavam faziam mais estragos na cidade que nos piratas. E enquanto isso, sendo transformado em aríete uma viga de madeira encontrada por perto, os portões da fortaleza estavam sendo forçados.
Do alvo das muralhas, os arcabuzeiros conseguiram atingir uma dúzia ou mais de inimigos, mas eram poucas as armas de fogo portáteis e muito longo o tempo de recarga. O óleo, colocado às pressas ao fogo para ser entornado em cima dos invasores, custava a esquentar. As pedras, arrancadas do calçamento do pátio, mostravam-se pesadas demais e difíceis de lançar muro abaixo. Foi com vexação e desespero que as pessoas viram o enorme portão tanger, estalar, rachar e finalmente ceder aos invasores. Aos berros e brandindo espadas, os piratas inundaram a praça-forte.
A carnificina durou pouio. Por conta das ordens insistentimente gritadas pelo visconde de Jas e por Bertrand a maioria das pessoas que se rendeu foi poupada.
— Le capitaine, le capitaine..., — vociferava Bertrand, cabelos desgrenhados, espada em riste, lavado em suor e com uma feia mancha de sangue à altura do estômago.
Ajeitando as vestes com puxões enérgicos e esforçando-se para manter a dignidade do cargo, o capitao-mor apresentou-se. Recebido com apupos e risadas gaiatas, ganhou safanões e foi trancafiado, junto com os demais homens que se renderam, no calabouço da fortaleza que comandava. As mulheres nao. As muito velhas ou muito novas, foram enxotadas e postas a correr muro afora. As demais, quando se viram sendo arrastadas para as cavalariças, começaram a chorar, gritar ou rezar em voz alta.
Funchal, a capital da Ilha da Madeira, estava entregue aos piratas.
Bertrand ordenou a pilhagem e sentou-se a uma sombra como amigo visconde para descansar. O jovem barao de Guitimeres, que havia se associado ao projeto, e logo depois Gaspar Caldeira, que não participara do combate, juntaram-se a eles. Sorriam uns para os outros radiantes de felicidade. O assassínio, depredaçao, estupro e pilhagem significavam quase nada para aqueles moços. Pareciam-lhes coisa perfeitamente razoável. Pelo menos, quando coroado por atos de valentia ou golpes de audácia, como o que haviam engendrado. Espanha e Portugal não haviam dividido entre si o Novo Mundo e eram os senhores dos mares? Pois muito bem. Eles, Bertrand de Montluc, a quem o pai marechal expulsara do Exército, e mais o jovem visconde de Jas, que a rainha de França queria transformar em apreciador de artes, tinham demonstrado do que eram capazes. Ah quando soubessem na corte!... Carlos IX, o atoleimado rei francês de dezesseis anos, era simpático a eles. Com seu sorriso assustadiço, decerto vibraria quando contassem a proeza em detalhes.
— Foi a melhor idéia que tiveste na vida, ó Caldeira — brincou Bertrand com o idealizador do projeto.
— Sinto-me vingado, meu senhor — anuiu o renegado português. — Mas... e esse teu ferimento? É bom cuidar. Temos cá algum barbeiro-cirurgião ou fisico?
Bertrand sorriu trocista.
— Mestre-físico, ó Caldeira?... És português mesmo. Ah! ah! ah! ah! ah! Já viste corsários andar com fisicos? Trouxemos para cá foi a escumalha da Guyenne. A escória da escória, entre os piores de França.
O sangramento aumentara com as risadas.
— Vou ver no calabouço se temos cá alguém que possa ajudar — prontificou-se o diligente português, levantando-se apressado.
O convento de Sao Francisco e a catedral foram os primeiros alvos dos piratas. No convento só encontraram o sacristão e o vigário, que há dias padecia de febre terçã. Logo tiraram frei João da cama, para que mostrasse onde haviam escondido o que buscavam.
— O ouro, o ouro!... gritavam afobados — Que ouro? Nao existe ouro, algum homens de Deus. — tentou negar o sacristão, antes que fosse calado para sempre com duas ou três estocadas.
Transido de medo, o vigário arrastou-se até a catedral e abriu o cofre da sacristia e o sacrário. Afora as hóstias, lançadas longe com desprezo, tudo o mais foi colocado em sacos e levado. E já que estavam ali mesmo, os assaltantes não desperdiçaram a oportunidade de roubar também os candelabros e santos, o turíbulo de prata, quebrar a pauladas o órgão do coro e esvaziar as tripas no altar.
A notícia dos estragos em Funchal só chegou à vila de Santa Cruz às duas horas da tarde. Tão rapidamente quanto possível, capitão-mor local reuniu os homens daquela e das vilas vizinhas e marchou em defesa da capital.
Entre os prisioneiros do calabouço, nenhum mestre-fisico ou barbeiro-cirurgião teve coragem de se apresentar. Tentando fazer pândega e dar pouca importância ao ferimento, Bertrand foi sendo acometido de tonteiras, lassidão nos membros, fraqueza... Começou a vomitar sangue e finalmente expirou nos braços dos companheiros. Cavaram uma cova para ele ali mesmo, no pátio da fortaleza, assinalada por uma cruz que montaram com uma espada e um punhal. Ato contínuo, com juras de vingança, o visconde de Jas assumiu o comando do corso.
Nas duas semanas que passaram em Funchal, não houve barbaridade, vandalismo, depravação ou maldade que os corsários franceses não houvessem praticado. O pequeno grupo de voluntários das vilas vizinhas que marchou em defesa da capital logo percebeu a desproporção de forças e limitou-se a fazer surtidas esporádicas, aqui e acolá, com baixíssimo resultado.
Os prisioneiros do calabouço foram postos a trabalhar, para carregar os oito navios-pirata com o açúcar e o vinho da safra madeirense daquele ano. Porões cheios, havia pouco espaço para as sedas, brocados, baixelas, faianças, tapetes e móveis orientais, cálices, ostensórios, turíbulos, relicários, crucifixos e imagens de santos que haviam roubado. O visconde de Jas ordenou então a tomada de um, elogo em seguida do outro navio, dos três que estavam ancorados no porto quando chegaram. Fazendo planos debochados para o destino que dariam ao produto do saque, explodiram os canhões da fortaleza e, com a maré-cheia do dia dezenove, finalmente fizeram-se ao mar.
CAPÍTULO 34
Engolidas as velas pela linha do horizonte, hesitantes de medo e trauma, as pessoas aos poucos foram voltando para a cidade. Portas arrombadas, casas reviradas, igrejas e conventos conspurcados; somava-se à triste visão o cheiro nauseabundo dos quase trezentos cadáveres insepultos, carcomidos aqui e acolá por cães famintos e aves carniceiras.
— Nem mesmo Dante Alighieri, na passagem do "Inferno" da sua Divina Comédia, conseguiria imaginar um quadro tão terrficante quanto este — comentou, pesaroso, o senhor bispo, um dos primeiros a fugir para as colinas quando da chegada dos franceses.
Libertados os esquálidos presos do calabouço, o capitâo-mor da fortaleza de Funchal encheu-se de brios. Mandou enterrar os mortos, limpar a cidade, avisar no Reino. O capitão da única caravela disponível se dispôs a cumprir a missão. Cinco dias depois atracou na Ribeira das Naus.
Lisboa ficou indignada. A corte estarrecida. O reizito encheu-se de ódio. Atropelando a morosidade do tio-avô-regente, no prazo recorde de quatro dias armou uma frota de oito galões e catorze caravelas, e queria, porque queria, sair à caça dos piratas. Só a muito custo os mestres, o velho aio, a avó e o tio-cardeal conseguiram conter Sua Alteza, prometendo entregar o comando da expedição punitiva aos mais valentes soldados.
— Tragam-me os desgraçados. Faço questão de assistir, quando formos enforcar esses infames cá no Rossio — animou a tropa Dom Sebastião, com a sua voz ora aguda, ora grave de menino de doze para treze anos.
De nada adiantou.
Depois de mais de um mês perambulando pelo mar, o máximo que a armada portuguesa descobriu foi que o grosso do produto do saque havia sido vendido nas ilhas Canárias. Adicionalmente, que o comando do corso estivera a cargo de nobres franceses e de um certo português de nome Gaspar.
Gaspar? Gaspar Caldeira? Levantaram-lhe a ficha.
Nativo de Tânger, filho de uma jovem da nobreza árabe e de um fidalgo português morto em combate, Gaspar fora trazido para Portugal ainda menino e criado na corte. Falador, envolvente e bem-apessoado, com o tempo, graças à sua préstimosidade e simpatia, chegara a ser moço de câmara do cardeal Dom Henrique. Anos mais tarde, já rapaz, surpreendido tentando contrabandear ouro, acreditou que sua proximidade com o cardeal o livraria da punição. Enganou-se. Levado à presença de Dom Henrique, o cardeal humilhou-o tanto quanto pôde, atribuindo sua má conduta à ascendência muçulmuna.
— Uma vez mouro, sempre velhaco! Perda de tempo batizar — vociferara o cardeal. E com um sorriso sarcástico: — Não, capitão, não quero que o enforques por enquanto. Sofreria pouco, o canalha. Manda essa pústula nojenta apodrecer no Limoeiro. É lá que haverá de purgar os pecados.
Fazia seis anos que Gaspar Caldeira fora trancado numa solitária na Prisão do Limoeiro. De estranhar é que houvesse fugido sem que autoridade alguma tivesse tomado conhecimento.
O carcereiro-mor do Limoeiro e alguns auxiliares foram considerados culpados e desterrados para o Brasil. E a cabeça do fugitivo colocada a prêmio.
Protestantes franceses haviam invadido e se apropriado do Rio de Janeiro. Agora, um visconde e um barão da nobreza francesa tinham estado à frente do corso que saqueara Funchal. Os prejuízos eram imensos e, só no ultimo embate, quase trezentos portugueses tinham perdido a vida. Dom Sebastião não se conformava. Queria declarar guerra à França.
O cardeal Dom Henrique tentava contemporizar. Por intermédio de Dona Catarina, o tio, Felipe de Espanha, que sete meses depois da morte de Mary Tudor voltara a se casar — dessa feita com uma das irmãs do rei da França —, foi instado a evitar o conflito. Com cartas cheias de tato e palavras bajuladoras, conseguiu dissuadir o sobrinho. Mas os indignados protestos de Portugal junto ao rei francês, a insistência para que entregasse os culpados arruinaram as negociações do casamento de Dom Sebastião com Margarida de Valois.
Dona Catarina respirou aliviada. A ameaça de desmoralização do neto no tálamo nupcial por ora estava afastada. Agradeceu aos Céus com muitas missas e esmolas para os pobres. Só depois de alguns dias, enquanto bordava, caiu em si. Suspendendo o bordado, refletiu, juntou as pontas soltas da idéia e finalmente compreendeu as palavras cochichadas para ela, meses antes, quando fora visitar Castanheira em seu leito de morte. Sussurara-lhe, então, o velho conde moribundo: “Será feito, Alteza. Não por vós. Pelo senhor meu rei. Por Portugal”.
CAPÍTULO 35
O menino rei estava orgulhoso. Haviam fundado uma cidade em homenagem a ele. Pena que um vilarejo de poucas casas, perdido na imensidão do Brasil. Mas diziam que o local onde haviam edificado Sao Sebastião do Rio de Janeiro era magnífico. Talvez mais belo lugar deste mundo — mandara-lhe dizer o governador Mem de Sá. E um lugar heróico. Ali muitos e muitos combates haviam sido travados entre os cristãos e os protestantes franceses.
Nesta conquista, que durou alguns anos, andaram os homens como religiosos confiados em Deus, na presensa do capitão-mor Estácio de Sá, o qual, além do seu grande esforço e prudência, era todo exemplo de virtude e religião cristã . — afiançava o padre José de Anchieta.
— Estácio fez mesmo um trabalho excelente, Alteza. Regulava a vida licenciosa dos soldados pelo Evangelho. Nao foi bom eu ter insistido em mandá-lo para o Brasil? — gabava-se Pedro de Alcáçova com a rainha, tentando valorizar a sugestão que dera antes.
— Foste sempre um bom conselheiro, ó Alcáçova — aquiesceu, Dona Catarina, com saudosa melancolia dos "bons tempos” em que fora regente. — Mas me diz: o que foi feito dele?
— O Estácio? Morreu, Alteza. No dia em que se comemorava a vitória contra os franceses, em consequência de uma flecha envenenada.
— Que Nosso Nosso Senhor Deus o tenha em Sua glória!
— E não nos desampare!
Com a regencia em mãos do cardeal, Alcóçava saíra da ribalta. Agora, o ministro mais poderoso do Reino era Martim Gonçalves da Câmara, um irmão do padre Luís, o preceptor do reizito. Por insistência de Dom Sebastião, Martim fora nomeado Escrivão da Puridade de Sua Alteza e era, igualmente, mestre da Mesa de Consciência e dos Desembargos do Paço. Quaisquer pedidos, qualquer mercê do Desejado, passava necessariamente por ele. Invejado pelo poder que conquistara, as más-línguas diziam que Martim mandava no Reino mais que o rei.
Outro que estava prestigiado era Lourenço Pires de Távora, o antigo embaixador em Castela, por conta de uma bem-conduzida missão junto ao Papa e do heroísmo demonstrado em Mazagão. E a pedido da princesa Juana, sua amiga e confidente, Lourenço tentava agora convencer o cardeal Dom Henrique da conveniência de casar Dom Sebastião. Não mais com Margarida de Valois. Com a prima Isabel, arquiduquesa de Áustria, filha de Maria, a irmã de Felipe de Espanha e de Juana.
— Foram feitos um para o outro. Eminência. Dona Isabel é até uns poucos meses mais nova que Dom Sebastião. Penso que Suas Altezas, os pais dela, concordariam que a noivinha fosse trazida desde já para a nossa corte, para ser educada nos costumes cá do Reino antes do casamento.
O cardeal não parecia muito animado. Ainda que não fosse propriamente castelhana, a arquiduquesa austríaca era sobrinha da mãe de Dom Sebastião e de Felipe II. Igualmente, sobrinha-neta de Dona Catarina, o que deixaria Portugal, uma vez mais, enredado nas teias de Castela. Não, não era uma boa idéia. Depois que a união com a Casa de França fracassara, ele andava pensando muito em Elizabete, a meia irmã de Mary Tudor, que subira ao trono da Inglaterra. O fato de a rainha inglesa ser vinte e um anos mais velha que Dom Sebastião nem o preocupava tanto. Difícil era aceitar o fato de que Elizabete fosse filha do excomungado Henrique VIII e de Ana de Bolena, “uma rematada prostituta.
— Pense na conveniência para nossa fé, Eminência, de unir as Quintas de Portugal com a Águia de Áustria51. Faríamos tremer os muçulmanos.
— Vejamos, vejamos, ó Lourenço.
— Quando de minha última estada em Roma, tomei a liberdade de comentar essa minha idéia com o Santo Padre. Sua Santidade apreciou muito a sugestão.
— Vejamos,Lourenço. Preciso pensar. Ademais, logo, logo o meu sobrinho vai assumir o pleno governo. No frigir dos ovos, a decisão vai caber a ele.
— Mais posso... posso contar com a vossa simpatia para o enlace?
— Vejamos Lourenço. Vejamos.
51 Alusão a bandeira dos dois países.
CAPÍTULO 36
No dia de São Sebastião de 1568, exatos catorze anos depois de chegado ao mundo, conforme recomendação das cortes, o Desejado foi considerado maior de idade e recebeu o governo do país. Para que o povo pudesse participar do evento, montaram um rico palanque no Rossio, anexo ao Paço dos Estaus — o palácio construído pela coroa cento e tantos anos antes, para libertar os lisboetas da obrigação de hospedar em suas casas os fidalgos e embaixadores de passagem pela cidade; hóspedes que, queixava-se o povo, "gastavam-lhes as camas, bebiam-lhes o vinho e, nao raro, usavam-lhes as filhas".
Praça apinhada de gente, as pessoas diziam de umas para as outras:
— Parece que foi ontem.
— Lembro-me como se fosse hoje.
— Eu estava lá naquele dia!
A um gesto do mestre-de-cerimônias pedindo silêncio, o burburinho cessou. Inclusive no palanque. As damas da corte, os membros do corpo diplomático, os ministros e conselheiros, os nobres, fidalgos e prelados, todos pararam de cochichar. Protegido do frio de janeiro por um magnífico manto de veludo escarlate debruado em pele de arminho. Dom Sebastião sai do Paço dos Estaus e entra no recinto. Todos se curvam à sua passagem. Passos firmes, coroa na cabeça e cetro na mão, com gestos enérgicos o rapazinho joga o manto para o lado e senta-se no trono engalanado. O povo fica mudo, em contemplação.
O cardeal Dom Henrique caminha em direção a El-rei, faz uma profunda reverência ao sobrinho e diz, em tom ensaiado:
— Muito alto e muito poderoso rei, nosso senhor. Posto que este dia seja de mim o mais desejado, e de maior glória que possa ser, em que vejo Vossa Alteza em idade de catorze anos assentado em sua cadeira real, com muita prudência, virtude e zelo do serviço de Nosso Senhor, entrego-lhe o governo destes seus reinos, quietos e pacíficos, no estado em que estão.
A boquinha de boneca chinesa do Desejado abre-se num leve sorriso.
— Todavia — continua Dom Henrique, fazendo cara de mártir —, conheço as faltas e negligências que nele por mim passaram, mas almejo que compreendas que tudo o que fiz, ou deixei de fazer, foi sempre por me parecer que era o que mais cumpria ao serviço de Vossa Alteza e ao bem de vossos vassalos. Espero da alta compreensão e maduro juízo de Vossa Alteza que emende os meus erros e intente empresas tão heróicas como nos prognosticou o vosso milagroso nascimento.
Ouviram-se algumas palmas. Palmas de má vontade. Palmas cadenciadas, daquelas que se costuma dedicar aos que estão perdendo o poder.
Encerrado o brevíssimo discurso, recebeu o cardeal das mãos de seu camareiro- mor o Selo Grande das Armas Reais, o carimbo de ouro que validava as ordens escritas do rei. Prostrando-se de joelhos, Dom Henrique entregou ao sobrinho o Selo e com ele o regimento que recebera quando das Cortes de 1562. Dom Sebastião agradeceu com um gesto de cabeça, repassou o sinete e documentos ao seu velho aio, e um pouco titubeante a princípio, mas logo se recompondo, falou em tom solene:
“Tenho em mercê que vós levastes em governar estes reinos, e o cuidado que disso tivestes, de que sempre terei lembrança. Eu recebo o governo, e espero em Nosso Senhor, com a mercê que a rainha minha senhora e avó quer fazer de me ajudar, e com a que a mim vós dareis, governar estes reinos como convém ao bem deles e a minha obrigação".
Chapéus voaram para o alto na praça. O povo prorrompeu em vivas e aplausos, deixando-se encantar pelo jeito sedutor do rapazinho
Ainda de joelhos, o cardeal beijou respeitosamente a mão do jovem rei. Seguiu-se a ele Dona Catarina, o duque de Guimarães, o duque de Bragança, o duque de Aveiro, o marquês de Torres Novas, os condes de Vimioso, Odemira, Portalegre e Vidigueira, e outros muitos fidalgos e pessoas principais do Reino que haviam se autoconvidado para a cerimônia.
Terminado o beija-mão. Dom Aleixo, o velho aio, cochichou alguma coisa no ouvido do rei. Dom Sebastião levantou-se, fez uma sutil reverência para a avó e desceu do palanque por uma escada lateral. Como se comandados por uma força invisível, o povaréu recuou um passo e curvou a cabeça. Parecia um sonho. O Desejado, o Messias do Reino estava bem ali, em pleno Rossio, pisando o mesmo chão que eles. Houvesse nas primeiras filas alguém mais afoito, poderia até tocar o Sublime Rei.
Com expressão sisuda e caminhando resoluto em direção à multidão, as pessoas foram abrindo passagem. Seguido do tio-avô, da avó, de todos que estavam anteriormente no palanque e acompanhado pelo povo na rabeira do cortejo, Dom Sebastião atravessou a praça em direção à igreja de São Domingos. Logo ouviram-se os longos acordes do velho órgão e um coro de monges entoando o te-déum,
A passagem d'el-rei pelo antiquíssimo santuário, construído fazia mais de trezentos anos, durou só uns poucos minutos. Ajoelhado numa almofada posta aos pés do altar-mor. Sua Alteza balbuciou graças por Deus lhe ter concedido chegar à idade de governar o reino e pediu assistência para a execução de tão alta e dificultosa empresa.
— Foi singelo demais — comentava uma mulher com o marido, de volta para casa, subindo as íngremes e tortuosas ladeiras da Alfama. — Pensei que a coroação fosse mais pomposa.
— Ora, filhinha, não sejas estúpida. Coroação é sempre coroação. O importante é que, a partir de agora, o Desejado é rei de verdade.
— Queira o Nosso Senhor, seja um bom rei.
CAPÍTULO 37
No dia em que Sebastião assumiu o governo, do outro lado do mundo dois acontecimentos memoráveis pareciam pressagiar a volta dos bons tempos.
Para marcar com um banho de sangue a subida ao trono do novo rei cristão, a fortaleza portuguesa de Málaca, nas Índias, foi atacada por uma formidável armada de trezentos e cinqüenta barcos e quinze mil soldados do reino de Achem — um povo da ilha de Sumatra, de religião muçulmana, aliado do Grao-turco. Que surpresa! Enquanto em Málaca os portugueses rechaçavam o ataque, Dom Antão de Noronha, vice-rei das Índias, previamente informado por seus espiões dos planos do rei malaio, vindo pelo outro lado conquistava Mangalor, a capital do reino de Achém.
Saldo das batalhas daquele memorável dia nas Índias: três mil e seiscentos muçulmanos mortos, contra apenas três cristãos.
— Sabes quanto vale um bom português?
— Trocado em mouros, um mil e duzentos! — brincava-se.
Três semanas depois, outra grande alegria agitou o povo de Lisboa. Gaspar Caldeira, o renegado que levara os piratas franceses à Ilha da Madeira, havia sido capturado na França e estava chegando à cidade.
Do cais do porto à Prisão do Limoeiro, o povo seguiu o cortejo vociferando, xingando e jogando estrume no traidor. Na manhã seguinte, com a língua queimada a ferro em brasa — por ter ousado incriminar o falecido conde de Castanheira —, mãos atadas a uma corda puxada por cavalo bravo, Gaspar foi arrastado pelas ruas até o Rossio sob os apupos do povaréu.
No cadafalso montado no meio da praça, passando um dedo pelo gume da lâmina, o carrasco certificou-se de o machado estar bem afiado. Decepar primeiro uma e depois a outra mão do amigo português de Bertrand e do visconde de Jas foi fácil e rápido. Pena que a algazarra da assistência abafava-lhe os urros de dor — houve quem se queixasse. Um padre apareceu em seguida, resmungou ligeiras orações em latim e benzeu o supliciado de cotos pingando sangue. Arrojado para os pés do pelourinho, um laço foi colocado em volta do pescoço do renegado e a corda começou a ser esticada e esticada. Bem devagar.
— Bah!... Morreu logo, o desgraçado! — lamentou-se um garoto com o pai.
— Cala essa boca, ó miúdo. Tem mais.
E tinha mesmo. O corpo de Gaspar foi tirado da forca e arrastado de volta para o cepo. Um golpe mal calculado não conseguiu decepar-lhe a cabeça. As vaias da assistência irritaram o verdugo. A próxima machadada fez o coco sangrento cair no meio do povo. Rapidamente improvisou-se um jogo de pelota, e a cabeça de Gaspar rolou pela areia do Rossio chutada de um lado para o outro, até que um lanceiro a espetasse num chuço e a trouxesse de volta para o cadafalso. Com um sorriso de maus dentes, o carrasco cuspiu nas mãos e aprumou com firmeza o cabo do machado. A um só golpe na altura da virilha, uma perna foi decepada. Depois a outra e, na sequência, cada um dos braços. Três outras machadadas certeiras e o tronco foi dividido em duas metades, fazendo as vísceras esparramarem-se pelo tablado.
— Não queres mandar pôr fogo cá nessas tripas, ó meirinho? — questionou o verdugo com o oficial de Justiça. — Era mesmo um saco de bostas, o desgraçado.
Pedaços de Gaspar Caldeira foram pendurados nos portões de entrada de Lisboa.
Ficariam em exposição até ser comidos pelos corvos e só restar a ossada. O povo adorou a vingança de Dom Sebastião. Ainda mais porque, por vários dias, os furtos sumiram do boca-a-boca popular. Os ladrões pareciam intimidados. Melhor ainda: a meninada estava dando pouco trabalho aos pais. De tanto verem o que acontecia com "quem desobedecia aos mais velhos", as crianças lisboetas mantinham-‐se muitíssimo bem-comportadas.
A alegria durou pouco. Na quarta-feira de trevas52 as pessoas acordaram surpreendidas com um édito real, pregado à noite pelos arautos do Paço em todas as duzentas e quarenta povoações do Reino. A partir daquela data, as moedas de cobre em Portugal estavam mudando de valor. A moeda de dez réis passaria a valer três. A de cinco, um real e meio. A moeda de três réis valeria agora apenas um real.
52 A quarta-feira da Semana Santa.
A explicação para a mudança mexia com o sentimento de orgulho pátrio. Tendo verificado que as moedas de cobre portuguesas tinham estampado um valor inferior ao custo do metal de que eram fabricadas, os ingleses e os flamengos estavam inundando Portugal com moedas falsas, que davam um jeito de trocar pelas verdadeiras. Era preciso acabar com aquela vergonha, dizia o rei, fazendo o dinheiro valer o que efetivamente pesava.
— Espera aí!...discutia um dourador com um luveiro da rua Nova dos Mercadores.
— Será que não foi por isso que aquele conselheiro mandou cá me chamar ainda ontem e quitou as dívidas?
— Comigo aconteceu o mesmo.
— Nos engabelaram, os filhos da puta! O dinheiro com o qual nos pagaram agora só vale um terço!
Lojas fecharam, gentis-homens teriam ficado loucos, mais de um mercador cometeu suicídio. Com exceção dos poucos que tiveram acesso prévio aos planos reais, quem era rico de dinheiro em casa caiu para remediado, e os remediados foram empurrados um pouco mais para baixo na escala social. A plebe, no entanto, que não perdera coisa alguma, até porque não tinha mesmo o que perder apoiava com entusiasmo a iniciativa do rei. Sentiam-se vingados
Quando perdida toda esperança,
Portugal terá bonança,
Com a vinda do Encoberto.
Entre a gente graúda, à boca pequena, havia quem ousasse dizer que haverem entregado a um menino de catorze anos a responsabilidade de gerir o Reino só podia mesmo dar naquilo! Seria de esperar outras loucuras. E Dom Sebastião não os fez esperar demais. Mandou que fossem abertas trinta vagas para estudantes pobres na Universidade de Coimbra. A condição era que os rapazes se submetessem a um processo seletivo e tivessem sangue limpo; isto é, não fossem descendentes de muçulmanos ou de judeus.
Gentalha estudando em Coimbra?... Que louco absurdo! A menos que Sua Alteza pudesse ser colocada de novo sob a tutela do cardeal ou pelo menos da avó, só Deus sabe onde Portugal iria parar!
Dom Henrique gostava do poder, mas de tolo não tinha nada. Correr o risco de indispor-se com o sobrinho-rei nem sequer cogitava. Já Dona Catarina mostrou-se receptiva. Solicitada a interferir, sugeriu ao neto três nomes de peso para compor o seu Gabinete: o ex-governador do Brasil, Tomé de Souza; o bispo de Miranda e capelão real, Dom Julião de Alva; e Pedro de Alcáçova, o fiel secretário desde os tempos do Piedoso.
Dom Sebastião recusou os três. Por enquanto, justificou-se de má vontade, preferia manter o ministério que compusera com o cardeal. E os irmãos Luís e Martim Gonçalves da Câmara pareciam ainda mais poderosos. Até porque, diante da bateria de críticas dos graúdos, fora do ministro Martim a idéia de el-rei fazer um afago nos donos de capital. E que belo afago! Quebrando uma regra estabelecida pelo Venturoso bisavô, Dom Sebastião renunciou ao monopólio da coroa sobre produtos ultramarinos. A partir dali, quem quisesse ir buscar especiarias diretamente nas Índias, porcelana na China ou pau-de-tinta no Brasil, que fosse. Era só pagar os direitos alfandegários.
Só mesmo um rei jovem e corajoso, para tomar iniciativa dessa envergadura !, comentava-se nos círculos empresariais. E os mercadores rapidamente pararam de reclamar das perdas com a desvalorização do real.
Já Lourenço Pires de Távora julgara de bom-tom dar uma trégua na insistência em casar o jovem rei. As notícias chegadas da Espanha não eram nem um pouco agradáveis.
CAPÍTULO 38
Dois dias antes da subida de Dom Sebastião ao trono, Carlito, o primo espanhol do rei de Portugal, fora encarcerado. Repetindo uma triste história familiar, havia sido preso em seus aposentos pelo próprio pai, que colocara para vigiá-lo alguns nobres de confiança. E, para evitar malididicências, Felipe cuidara de escrever ao Papa, ao sobrinho rei, à tia-rainha e outros príncipes da Europa contando o seu drama.
Carlito parecia trazer no sangue a herança da bisavó, a rainha-louca de Castela. De fato, desde a adolescência, dava mostras de desequilíbrio mental. Cometia as piores heresias contra a memória do avô, o imperador Carlos V, recusava-se a assistir à missa, quebrava crucifixos, cuspia em santos e acusava a tia Juana de culpada por não ser ele agora o rei de Portugal.
— Por que tinhas que ter parido aquele boca-de-chupa-ovo?! Será que o tal Sebastião é filho mesmo do João Manuel? Não seria de algum dos teus amantes?
Não era de agora que se comentava na corte espanhola que Carlito perdera o juízo. Quando de seus acessos, batia nos pajens, estuprava criadas e, por último, tentara mesmo atacar a madrasta. Por medo do sobrinho, a princesa Dona Juana até mudara- se para o convento das Descalças Reais.
No dia dezoito de janeiro Carlito acordara particularmente desatinado. Os criados de quarto contaram depois que ele não cansava de repetir: Só faltam dois dias. Só dois dias. E enquanto Felipe discutia com seus ministros sobre a revolta dos mouros de Granada, Carlito entrara no Salão do Conselho e começara a gritar que o pai o traíra e queria matá-lo. Felipe fora ao encontro do filho pedindo calma. O príncipe sacara um punhal e ameaçara Sua Majestade.
Como não temer as loucuras daquele pobre rapaz? Como não isolá-lo do convívio da corte? Como não recear que ele viesse a cometer um desatino ? Desatino que, aliás, efetivamente cometeu. Na manhã de vinte e quatro de julho amanhecera morto em seus aposentos, enforcado nos cordões de um reposteiro.
Eh! — pensou Lourenço Pires de Távora —, aquele não estava sendo um ano nada bom para Felipe de Espanha.
Setenta dias depois do suicídio do filho, morrera Dona Isabel de Valois, a terceira mulher de Felipe. Haviam se casado como parte do tratado de 1559, que pusera fim às históricas hostilidades entre França e Espanha. Dezenove anos mais velho, duas vezes viúvo, Felipe acabara se apaixonando pela candura da menina de treze anos. O embaixador francês em Espanha até escrevera a Catarina deMedicis, mãe de Isabel: "La constitución del rey causa graves dolores a la reina, que necesita mucho valor para evitarlo". Talvez por conta disso, somente sete anos depois de casados tiveram a primeira filha. Em compensação, no ano seguinte nascera outra menina e, no seguinte, a jovem rainha voltara a ficar grávida. Depois da tentativa de ataque por parte do enteado, abortara. Morrera em conseqüência do aborto.
Felipe ficara viúvo pela terceira vez e sem filhos homens. Não tinha sequer irmão. Só mesmo Jeromin, o filho bastardo de Carlos V. Mantidas essas condições, seu sobrinho, o jovem rei de Portugal, bem poderia ser o herdeiro da coroa de Espanha. Percebendo a oportunidade, e para livrar-se das pressões mais imediatas para que viesse a se casar, Dom Sebastião mandou pedir ao tio Felipe a mão da prima Isabel Clara Eugenia, que acabara de ficar órfã de mãe. Colocava-se o rei de Portugal desde já como candidato a desposar a princesa. Mas, naturalmente, seria preciso aguardar que Isabelita tivesse idade para contratar casamento. Por ora, contava só dois anos.
Felipe não disse que sim, nem que não, mas apreciou a idéia. Não deixava de ser uma forma de manter o sobrinho sob a influência dele. E Sebastiãozinho parecia mesmo afortunado. No Oriente, as autoridades e os homens de armas portugueses faziam de tudo para agradar ao jovem monarca. Notícias de vitórias não paravam de chegar. Agora é Mem Lopes Carrasco que, navegando para a ilha de Sunda em uma nau com quarenta homens acabara se deparando com a armada do Achem, o povo afrontado em Málaca e Mangalor no ano anterior. Vinham com uma frota de vinte galés, vinte juncos e cento e setenta embarcações menores. Não sendo mais possível ao capitão português escapar, mesmo diante da desproporção de forças decidira enfrentar o inimigo. A batalha durara três dias e três noites. Resultado: Carrasco mandara para o fundo do mar muitos barcos, matara um sem-número de muçulmanos e os que restaram vivos pusera a correr.
Não é à toa que tantos príncipes do Oriente estão se convertendo à verdadeira fé de Cristo!, — comemoravam os portugueses. — Os infiéis que se cuidem. Não perdem por esperar!
E um cristão-novo português que não se cuidou pagou o preço da imprudência. Seu nome era Alonso Carapito. Morador da vila de São João de Pesqueira, na hora em que se comemorava com uma missa solene o décimo quinto aniversário de Dom Sebastião, Carapito, "num impulso diabólico", foi impelido a arrancar a hóstia consagrada das mãos do pároco, "para satisfazer nela o estranhável ódio que os judeus têm a Cristo". Uma vez informado do incidente, el-rei de pronto tomou providências. Mandou que o judeu fosse levado a ferros para Lisboa. Na capital, rapidamente julgado e acusado de heresia, poucos dias depois foi queimado vivo no Rossio, sob os aplausos do povo.
Dom Sebastião estava mais orgulhoso do que nunca. Por conta das sucessivas vitórias contra os muçulmanos do Oriente, o papa Pio V pedia seu apoio na luta contra os turcos. Para reforçar o pedido, enviara-lhe um sobrinho como embaixador, e mandavalhe um presente todo especial: a espada e o chapéu de veludo roxo, com abas forradas de arminho, com os quais, no solene dia de Natal, Sua Santidade costumava benzer os bispos em Roma.
— Não meças gastos — ordenou o rei a Martim Gonçalves. — Quero que recebamosSua Eminência como nós, el-rei, gostaríamos de ser recebidos em Roma por Sua Santidade.
E o ministro Martim, como de hábito, esmerou-se para agradar.
Os pobres receberam roupa nova e comida, para se mostrar contentes. As casas de pintura gasta ganharam nova demão de cal. Lisboa foivarrida, lavada e embandeirada. No grande dia, a comitiva papal foi escoltada pelo Tejo por bergantins pintados de púrpura, onde bandas de pífaros, timbales e trombetas saudavam os visitantes. Nas fortalezas os canhões trovejavam os tiros de festim, enquanto os sinos de todas as vinte e cinco igrejas da cidade alegremente repicavam.
As amuradas da ponte de desembarque foram revestidas de guirlandas de flores e o piso alcatifado de tapetes persas. Ladeado por Lourenço Pires de Távora e numeroso séquito de prelados, Dom Henrique recebeu com pompa e cerimônia o colega cardeal, embaixador do Papa.
Um batalhão de negros, vestidos de damasco e tocando atabales, anunciou a chegada do rei. As gentes abrem passagem e esquecem-se dos visitantes para aplaudir o Desejado. O puro-sangue árabe em que Sua Alteza vem montado está todo ajaezado com fios de ouro e pedras preciosas. Apoiado nos estribos, levantando-se da sela de veludo franjado em pérolas, o rapazinho louro, vestido com sua magnífica armadura de meio-corpo ricamente cinzelada em dourado, tira por um instante a coroa, em respeito à autoridade da Igreja. O povo aclama, delirante, orgulhoso de seu Sublime Rei
O leito destinado ao embaixador do Papa no Paço dos Estaus é todo marchetado de marfim e ouro. Com suas rebuscadas colunas que sustem o rico dossel mais parece um sacrário graceja o cardeal Alexandrino, embaixador do Papa. O banquete de boas-vindas, igualmente, nunca mais seria esquecido. Eram de puro ouro as facas e as colheres; de prata cinzelada as escudelas; da mais fina holanda as toalhas e os guardanapos.
O serviço, para quase duzentas pessoas, começa com duas exóticas iguarias trazidas da China: sopa de barbatanas de tubarão e de ninhos de andorinhas com frangas. Seguem-se perdigões assados com linguiça; adens estufados com marmelo; perdizes com cardos à fricassê; pavões assados, enfeitados com suas plumagens; perus em gigote de toucinho; coelhos de cebolada; trouxas de carneiro com hortelã; pastéis de tutano; leitões assados com galinhola; pernas de borrego ao cassis e outras delícias que Sua Eminência absteve-se de perguntar. As sobremesas, por seu turno, eram uma tentação ao pecado da gula: ovos de laço; pastéis de marmelo; beilhós de arroz; figos recheados de chocolate; pastéis-de-santa-clara; suspiros do Tâmega; pudim de cabaço; toucinhos-do-céu; barrigas-de-freira; torresmos doces e sarrabulhos de mel; afora as imensas tortas-surpresa, de onde saem pombos voando.
O cardeal Alexandrino nao obteve garantias concretas de ajuda portuguesa para combater os turcos, mas regressou a Roma deveras impressionado.
CAPÍTULO 39
O segundo ano do reinado de Dom Sebastião havia começado muito bem, mas acabou mal. Ficou conhecido como o Ano da Peste Grande.
Provocadaa Dívina Justiça com os criminosos excessos da malícia humana, se resolveu Nosso Senhor disparar do arco da sua indignação esta venenosa seta, que no breve espaço de três meses reduziu a cinzas a maior parte dos moradores de Lisboa, escreveu um cronista. E continuava: A insolência dos grandes, o luxo dos eclesiásticos, injustiçados ministros, a opressão aos pobres e a incontinência escandalosa que domina em todo o gênero de pessoas armaram as mãos do Onipotente para fulminar os autores de tão execrados delitos.
Chovera muito em Portugal no início daquele verão. O Tejo saiu do leito e invadiu Lisboa. Com o refluir da inundação, muitas pessoas começaram a se descobrir com rubores na pele, seguidos de tumores de bordas escurecidas e fístulas purulentas — os bubões. Principiou a morrer gente. Cinquenta pessoas em um dia; sessenta no seguinte; oitenta no terceiro. Era a volta da Peste Negra, que de 1349 a 1351, havia matado uma quarta parte da população européia. Nos anos seguintes, com maior ou menor rigor, ora aqui, ora acolá, a peste ia e vinha. Mas já fazia quarenta anos que não atacava em Lisboa. E o povo rezava:
“Onipotente e eterno Deus, que pela intercessão de São Sebastião, vosso glorioso mártir, encorajastes os cristãos encarcerados e livrastes cidades inteiras do contágio da peste, atendei as nossas humildes súplicas, socorrei-nos em nossas necessidades, aliviai-‐nos das nossas angústias, reanimai os encarcerados, curai os doentes, livrai-nos do contágio. Pelos méritos de São Sebastião, atendei-nos, Senhor. Amém”.
As muitas missas e procissões não pareciam surtir efeito. Agora, na capital do Reino, morriam de quinhentas a seiscentas pessoas por dia. Esgotaram-se os túmulos nas igrejas e nos claustros de conventos53. Covas coletivas começam a ser escavadas nas ruas, de qualquer jeito. Alguém precisava fazer o serviço sujo. El-rei comutou a pena dos condenados às galés em carregadores de defuntos. Fez mais. Convencido de ser a peste castigo de Deus, baixou decretos contra os abusos do comer e do vestir, estabelecendo como espelho a parcimônia dos primeiros e duros tempos de Portugal como país. Para a exata observância dessas leis, foi ele o primeiro a dar o exemplo, passando a vestir-se com suma moderação e usando na mesa manjares mais para o sustento da vida que para lisonja do paladar. E acreditando serem as prostitutas de algum modo responsáveis pela ira divina, determinou que fossem proibidas de estabelecer "seu comércio imundo da carne" dentro dos muros da cidade.
53 Não havia cemitérios em Portugal, naquele tempo.
Dona Catarina já havia se deslocado para Alenquer e o cardeal Dom Henrique para Alcobaça. El-rei não. Mantinha-se a postos. Foi então que surgiu um boato. Ao que falavam, no dia treze de julho, duas das colinas mais altas de Lisboa caminhariam uma para a outra, enchendo o Tejo com seus desmoronamentos e produzindo uma inundação que afundaria a cidade.
Dom Sebastião consentiu finalmente em mudar-se para Sintra.
— Quero que Vossas Mercês não sigam comigo — dizia el-rei ao vedor da Fazenda, ao capitão-mor e ao governador da Casa do Cívil.
— Mas Alteza...
— Então sigam vocês — irritou-se o jovem rei. Fico cá eu.
— Absolutamente, Alteza...
— Não posso abandonar minhas gentes à própria sorte — argumentava o rei de quinze para dezesseis anos, andando nervosamente pela sala. — Tu, Martinho, precisas ficar para manter o domínio sobre as esmolas que mandei distribuir aos pobres. Tu, Mascarenhas, precisas cá estar para defender a cidade. E tu, Diogo, para ministrar justiça. Lisboa está a se transformar num covil de ladrões.
De fato, aliando à calamidade da peste o boato de afundamento da cidade, milhares de pessoas haviam fugido, deixando Lisboa entregue aos saqueadores e aos pestilentos. Os carregadores de defuntos não davam conta do serviço e os cadáveres amontoavam-se nas ruas ou apodreciam dentro das casas. Os corvos do mundo inteiro pareciam ter sido avisados do festim e estavam por toda parte. Frades de diferentes ordens percorriam a cidade tentando ajudar os enfermos, mas apareciam cada vez com menor frequência; a peste não lhes respeitava o hábito.
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